Anna Bella Geiger volta a mostrar trabalhos inéditos em exposição na Galeria Artur Fidalgo

Matéria de Catharina Wrede originalmente publicada no caderno de Cultura do jornal O Globo em 26 de abril de 2012.

 

Mostra ‘Nem mais, nem menos’ traz fotografia inspirada no pintor holandês Johannes Vermeer

RIO – Conhecida por uma vasta e ininterrupta produção, a artista plástica Anna Bella Geiger, de 79 anos, deu-se conta de que estava há quase oito anos sem mostrar trabalhos novos. Segundo a artista, o convite para uma exposição de obras inéditas feito por Artur Fidalgo, dono da galeria que leva seu nome, veio na hora certa para que ela se recolhesse para criar. Nesta quinta, Anna Bella inaugura, às 19h, “Nem mais, nem menos”, com curadoria do amigo e crítico Fernando Cocchiarale.

— Com “Circa”, senti que estava sobrevoando minha produção — conta Anna Bella, referindo-se à exposição “Anna Bella Geiger circa MMXI”, do ano passado, que fez um panorama de sua produção da década de 1960 até hoje.

Agora, diz ela, a sensação “é a de estar centrada”:

— No fundo, trata-se sempre disso: a busca do próprio centro, se encontrar. Sou uma artista que gosta de trabalhar seguido, mas às vezes tenho que parar a produção porque não tenho onde guardar, meu ateliê é pequeno, e o intervalo acaba sendo bom para repensar.

Composta por 18 trabalhos, “Nem mais, nem menos” reúne dez obras inéditas, entre fotografias, desenhos, pinturas, colagens e instalações – materiais e técnicas diversos, característicos da trajetória da artista.

— O trabalho dela é muito variado, e defini-lo por alguma mídia específica não dá -— diz Fernando Cocchiarale, que foi aluno de Anna Bella na década de 1970, quando a artista dava cursos de artes no Museu de Arte Moderna. — Procurei preservar esse caráter, mapeando o que ela já vinha fazendo.

Um dos trabalhos inéditos é a fotografia “Sleeping girl”, homenagem da artista ao quadro “A girl asleep”, do holandês Johannes Vermeer, datado de 1657. Em visita ao Metropolitan Museum, em Nova York, em 2006, Anna Bella pediu à neta Alice — cuja semelhança com a moça retratada por Vermeer impressionou a artista — para posar ao lado da obra, imitando a jovem sonolenta da pintura. Hoje, seis anos depois, Anna Bella encontrou a fotografia e a manipulou, colocando o rosto da neta no lugar da mulher do quadro.
— Vermeer é sempre um artista que cito nos meus trabalhos. Mas eu nunca tinha feito uma referência a ele fotograficamente, como agora.

Na mostra, estão presentes temáticas que a artista revisita de tempos em tempos, como os mapas e suas paisagens e fronteiras geopolíticas, econômicas e culturais — assunto recorrente em sua trajetória. Neste segmento, encontram-se os rolos cartográficos que mesclam técnicas e materiais, como desenho, colagem e metais.

— Anna Bella não é uma fábrica de ideias novas. Essa dispersão aparente no trabalho dela é, no fundo, processual. São inéditos porque não foram mostrados, mas não são estranhos ao processo dela. Meu olhar foi o de contemplar essa transformação — explica Cocchiarale.
De acordo com Anna Bella, o uso de múltiplos materiais é uma consequência de sua formação como artista:

— Já comecei trabalhando em arte dentro de um conceito de experimentação bem típico da arte moderna. Além disso, fui aprendendo também técnicas de gravura em madeira e metal, o que é típico de uma formação bem antiga. Uma vez me disseram que eu parecia uma artista da Renascença! Mas acho que as variações dos materiais são o meu prazer de posicionar algumas questões geopoéticas.
Resgatando memórias

Exemplo disso é a obra também inédita “Variáveis”, composta por quatro pedaços de linho branco com os continentes bordados à máquina e algumas anotações sobre geopolítica impressas.

— Não acho que eu sinta nostalgia, mas tenho cada vez mais tido necessidade de resgatar uma memória de um passado remoto. Não uma memória pessoal minha, mas uma memória da cultura ocidental, em que essa questão sociopolítica de fronteiras está presente.

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Carta de Lygia Clark para Hélio Oiticica

Paris, 6.2.1964

Meu muito querido,

Chegando hoje de Stuttgart, fui direto à Embaixada (exausta – meu pé cresceu já uns dois pontos – será elefantíase?) para buscar a carta que havia chegado para mim – Era sua! Valeu todo o meu cansaço pois cheguei pisando como uma velha de 80 anos… Você nem imagina a alegria que senti pois uma carta é sempre um pedaço da pessoa, e a gente lê uma, duas, trêz vezes tal a fome, que é a saudade, que a gente sente dos amigos! Acho que virei até antropófaga. Tenho vontade de comer todo mundo que amo e que se ache aí… coitado do Peter quando chegar! Bom, vamos moderar esta voracidade senão… bem passarei o resto da minha vida na cadeia como Genet, como devoradora de machos (o meu signo é escorpião, lembra-se)

Fui de trem para o vernissage. Frau Walter e Herr Bense me escreveram dizendo que, se eu quisesse montar a exposição montar a exposição, eu deveria chegar na véspera à tarde ou no dia 4 de manhã. Achei que não daria tempopara grandes arrumações e escrevi que confiava na Frau Walter para montá-la sozinha. Diz o ditado que a gente deve confiar desconfiando, o que eu fiz na minha burrice à la Lacerda, que você já conhece, não fiz.

Ah! Nunca mais! Pois ao chegar lá vi os Bichos quase todos dependurados pela sala por meio de fios de nylon, como os móbiles de Calder!… Estava exausta pois não havia dormido desde a véspera e havia viajado durante oito horas até lá. Evidentemente protestei imediatamente e, sob grandes protestos do Herr Bense e, posteriormente, da Frau Walter (que foi chamada pelo Bense para que me impedisse de retirar os Bichos pendurados), peguei uma tesoura e cortei todos os nylons do teto. Um Casulo que Bense não queria que ficasse na parede, eu o pendurei, e o grande Contra-relevo que era na diagonal (eles o haviam posto sob a forma de quadrado), eu o fiz pendurar certo. O argumento de Bense era: “Está tão bonito! deixe desta maneira!” (…)

Não é preciso dizer que foi criado um clima de guerra aberta. Fui delicada, disse palavras horríveis (longe do Herr e da Frau), mas com eles eu expliquei que isto desvirtuava totalmente o meu trabalho e que eu não podia de maneira nenhuma fazer concessão desta ordem. Pois bem, na hora da vernissage, eu quase desmaiada de fome, exaustão e nervosia, pedi a um brasileiro que me traduzisse o que Herr Bense estava dizendo -  começou ele dizendo que quando eu cheguei eu desarrumei todo o seu arranjo, que a respondabilidade do atual era só minha e que ele teve que respeitar a minha opinião de que a importância da minha exposição era da participação do expectador, etc., etc. Todo mundo morreu de rir e quando ele acabou de falar foi um sucesso total – todos sem exceção mexiam sem parar nos Bichos. Foi Lindo! Matemáticos, arquitetos, encantadíssimos com a exposição (que foi a mais merdífera feita por mim em toda a minha vida). Não me deram o salão grande, pois houve qualquer coisa entre o reitor e o Herr Bense, de modo que a exposição foi muito incompleta (perto da do MAM). Bases diminutas e os Bichos pareciam pousados num pé só como as aves fazem. Botei tudo no chão com raras exceções pois salvei ainda, improvisando, algumas bases. Não expuseram as fotos (caríssimas) das Arquiteturas fantásticas, nem os Abrigos, nem a Casa, tampouco o Caminhando – falta de espaço. Foi televisionada, muitos repórteres, críticos e intelectuais. Mais de dez pessoas me perguntando o preço – O lá lá!… Bense acha que venderei ao menos uns três trabalhos. Depois fomos comer juntos num restaurante. (…) Nesta hora os ânimos estavam ótimos, o Herr Bense, entusiasmado com o sucesso da exposição, Frau Walter, idem, e riam muito, quando admoestei o Bense, dizendo que na próxima vez que ele se propusesse a me atacar que o fizesse em francês, pois assim eu teria a chance de revidar à altura. No dia seguinte, a Frau me convidou para almoçar chez elle e o ambiente foi francamente ótimo. O Bense escreveu um artigo sobre Lygia Clark e Gertrude Stein – diz ele que vai me mandar – e vai escrever outro sobre a minha obra para uma ótima revista alemã. Pediu que eu expusesse (para o ano) na galeria de um amigo seu que é imprtantíssimo pois tem a melhor publicação de arte na Alemnha. Ficou radiante quando disse que, quando voltasse para o Brasil, deixaria com ele em Stuttgart uns seis Bichos emprestados. Dei-lhe um Casulo que ele escolheu e para a filha da Frau Walter uma maquete, pois eu gosto dessa Frau! O catálogo ficou bem bonito – vou mandar o do Mário e guardo um para você. (…) Vou terminar aqui pois a carta está enorme. Telefone Soninha (gosto pra burro dela), diga-lhe que já escrevi a ela sim, mas que a carta saiu tão triste e repelente que rasguei – vou amanha mesmo lhe escrever outra. Que ela não fique triste ou zangada, porque eu escrevi, isto eu juro!

Mil abraços para os nossos – (que incluem os seus).

Milhões de beijos

Lygia Clark

ps: Diga ao Eduardo que eu escrevi para ele duas cartas e ele não me respondeu ainda, [...].
Diga a Ana que vou responder amanhã sua carta.
Adorei!

Texto retirado do livro “Lygia Clark . Hélio Oiticica: Cartas (1964-1974)”, organizado por Luciano Figueiredo e publicado pela editora UFRJ.

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Yoko Ono – cut piece

performance “Cut Piece”, sendo realizada em 1965.

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Pílula: Dinh Thi Tham Poong

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Dinh Thi Tham Poong é uma artista do Vietnam que nasceu em uma região montanhosa, próxima a China, e é descendente de duas minorias étnicas de seu país: Muong e Thai. As pinturas de Dinh Thi Tham Poong são feitas em aquarela sobre papel artesanal e carregam em si referencias e visualidades de sua cultura.

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Rosana Paulino

Rosana Paulino é artista plástica e educadora brasileira, investigando em sua obra questões ligadas a gênero e raça, especialmente com o tema da mulher negra no Brasil.  A artista costuma utilizar técnicas e objetos tradicionalmente ligados ao universo feminino das artes aplicadas, vistas como domésticas e, portanto, femininas, tais como costura e o bordado.

Rosana comenta a respeito de seu trabalho:

“[...]Olhar no espelho e me localizar em um mundo que muitas vezes se mostra preconceituoso e hostil é um desafio diário. Aceitar as regras impostas por um padrão de beleza ou de comportamento que traz muito preconceito, velado ou não, ou discutir esses padrões, eis a questão.
Dentro desse pensar, faz parte do meu fazer artístico apropriar-me de objetos do cotidiano ou elementos pouco valorizados para produzir meus trabalhos. Objetos banais, sem importância. utilizar-me de objetos do domínio quase exclusivo das mulheres. Utilizar-me de tecidos e linhas. Linhas que modificam o sentido, costurando novos significados, transformando um objeto banal, ridículo, alterando-o, tornando-o um elemento de violência, de repressão. O fio que torce, puxa, modifica o formato do rosto, produzindo bocas que não gritam, dando nós na garganta. Olhos costurados, fechados para o mundo e, principalmente, para sua condição de mundo. [...] Gritar, mesmo que por outras bocas estampadas no tecido ou outros nomes na parede. Ele tem sido meu fazer, meu desafio, minha busca.”

Série "Bastidores" (1997)A artista, com seus trabalhos em pequena escala, tece uma política de dimensão íntima.

Na obra “Bastidores”(1997),  a violência simbólica aparece nas linhas que costuram as bocas e gargantas. Os bastidores, essa espécie de armação de madeira circular em que se prega o que se quer bordar, forma a moldura de uma condição: figuras de mulheres negras estampadas,  sem voz.  Esse ofício ligado a um corpo feminino silenciado, lugar de opressão.

Na obra “Sem título (da série As três Graças)” de 1998, o cabelo crespo é colocado lado a lado com um feixe de cabelo loiro e liso, confrontando uma  mentalidade colonialista e embranquecedora corrente no Brasil.

Série "As Três Graças"

A artista tece essas tramas simbólicas em seus bordados e costuras evidenciando enredamento do corpo da mulher negra em estereótipos perversos e coerções estéticas em que memórias pessoais esboçam um cenário político de opressão no país. E é no cotidiano e em seus objetos habituais que a artista trata a partir da sua própria condição, da violência histórica que assola a população negra.

Ana C.

 + inf.:

http://rosanapaulino.blogspot.com.br/

http://www.galeriavirgilio.com.br/artistas/rpaulino.html

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Lygia Pape

programa sobre o trabalho da artista brasileira Lygia Pape, que participou dos movimentos concreto e neoconcreto.

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Zine à caminho!

Pessoal,

Queremos saber de vocês, que nos acompanham nesse nosso pouco mais de um ano, um pouco mais sobre quem são, o que procuram por aqui e etc. Estamos fazendo um zine e essas informações vão contribuir para que que ele saia de acordo com o que vocês buscam por aqui. Mantemos contato com alguma frequência com vocês pelo nosso e-mail (coletivovvv@gmail.com) e queremos que isso se aprofunde.

Qualquer dúvida, sugestão, papo, podem nos contactar por esse e-mail! Aqui a nossa enquete, pra quem puder contribuir:

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Seção de Textos Atualizada!

A nossa seção de textos foi atualizada, com o da pesquisadora Luciana Loponte. O texto esborça um percurso não-cronológico a respeito de produção, exposições e livros a respeito das mulheres em Artes visuais no Brasil.

LOPONTE, Luciana Gruppelli. Mulheres e artes visuais no Brasil: caminhos, veredas, descontinuidades. Visualidades, v. 6, n.1 e 2 Jan-Jun/2008 Jul-Dez/2008.

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